Oi! Tem açúcar?
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Oi! Tem açúcar?

Precisa de uma furadeira, uma barraca de acampamento, ferramentas, uma xícara de trigo, ou café? Pergunte ao vizinho se ele tem.
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Site “Tem açúcar” propõe colaboração à moda antiga entre vizinhos.

Tem açúcar

Um dia desses estava gravando  o Gastronomias, nosso quadro de receitas no Youtube, e descobri que tinha esquecido de comprar açúcar para conseguir fazer a receita. Minha primeira reação foi: vamos perguntar se a vizinha tem açúcar? Incrivelmente, todos me olharam com cara de choque. Alguns perguntaram: – tá louca?! Não entendi a reprovação. Minha avó fez isso a vida inteira.

Oi, vizinho! Tem açúcar?

(Você pode “pular” o sentimentalismo e ir direto para a notícia no próximo título, ou, pode ler uma lembrança bonita em frente). Lembro bem de quando era criança e as trocas ou presentes – especialmente de itens comestíveis – eram um hábito da vizinhança da Av. São José, em Vitória do Mearim, interior do Maranhão. Tudo bem, que na mesma rua da minha avó moravam umas quatro famílias de parentes. Mas, a vizinha bem do lado da casa da minha avó, D. Eliane (que saudade…), por exemplo, não era parente, era educada, sorridente, alto astral e vivia trocando ou presenteando minha avó (que saudades também…) com metades de bolos, baldes de tangerinas e acerolas do quintal dela.

Quando faltava uma pimenta de cheiro – que minha avó adorava usar para temperar e cozinhar os peixes do Rio Mearim – ela não hesitava em pedir à D. Eliane, ou à vizinha da frente – que também não era parente -, ou de ver na casa da tia Zenilde, que morava no fim da rua, se tinha uma pimentinha para emprestar.

Mais recentemente, na minha casa mesmo, minha mãe, muitas vezes, quando precisava de uma xícara de trigo, ou açúcar, ou limões, nunca teve pudores em perguntar à D. Néia se ela teria algum dos ingredientes para emprestar. Lembro de uma certa vez que o gás da D. Néia acabou e ela estava assando um bolo. Bateu lá em casa e perguntou de poderia terminar de assar no nosso fogão. Claro que terminamos de assar o bolo para ela. Poucas horas depois – sem nenhuma necessidade, e por pura gentileza e amizade – fomos presenteadas com gordas fatias do bolo de chocolate.

Na adolescência, cansei de emprestar e, pedir emprestados, vestidos, acessórios e sapatos com minhas amigas. Era uma festa de 15 anos atrás da outra. Ninguém dava conta de comprar tanta coisa cara para usar em um dia apenas.

Hoje estou melancólica. Deu saudades da vovó, da D. Eliane e da gentileza das pessoas ao redor do mundo. Me desculpem. Quando fico assim, desando a escrever.

O site “Tem açúcar” e a salvação da vizinhança moderna

Ontem, vi na timeline de uma amiga, a Ana Miculis, o aviso de que ela havia se cadastrado no site “Tem açúcar?”. Achei curioso e fui ver o que era. Trata-se de uma espécie de rede de troca e empréstimo pela vizinhança. Só, que a proposta vai além da xícara de açúcar. Funciona assim:

Site Tem Açúcar

Eu já me cadastrei e marquei todos os meus vizinhos. Estou um pouco idealista, mais que o normal, nos últimos meses. Não poder contar com os vizinhos para uma xícara de açúcar é uma coisa que soa, no mínimo, bizarra. Estamos esquecendo como é ser gente, da nossa habilidade de conversa, de entendimento e GENTILEZA.

Você pode achar que eu sou louca, ou que estou exagerando, mas ainda sigo em direção a um mundo melhor e, ainda insisto em acreditar no bem que as pessoas podem fazer pelos outros, e pelo mundo. Tem gente louca que acha que o açúcar pode vir envenenado. Boa sorte com sua neurose.

Iniciativas como esta só comprovam que eu não estou idealista sozinha. Que já passou da hora de revermos nossos consumismos exagerados, impensados e desnecessários. Outro dia, um pote de anis estrelado estragou na minha geladeira. Tempos depois, descobri que meu vizinho estava em busca para aromatizar suas cervejas artesanais e, que só conseguiu o anis, porque foi a Porto Alegre. Tinha anis estragando na casa ao lado… É… penso que precisamos aplicar o conceito – pop – de sustentabilidade e não apenas disseminá-lo em teoria.

Agora, deu saudade de um dos meus melhores amigos de infância. Meu vizinho, André, com quem, muitas vezes, eu dividi a TV, um balde de pipocas e a garrafinha de Guaraná Antártica, para assistir Cavaleiros do Zodíaco. Deixo vocês com a novidade, que vou ali comprar umas long necks para dividir com meu vizinho mais tarde.

        

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