Eu não sei mais o que comer e isso é muito sério. Sobre ansiedade alimentar.
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Eu não sei mais o que comer e isso é muito sério. Sobre ansiedade alimentar.

Socorro. Eu preciso voltar a conseguir comer sem peso na consciência, no corpo ou  na culpa. 
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Ansiedade alimentar

Imagem Freepik

Há quem diga que a ignorância é uma benção. Esse é um depoimento sincero de quem comia pouco na infância e início da adolescência. Depois passou a gostar de comer por volta dos 18 anos. Aos 24 começou a gostar muito de comer, tanto que criei esse blog e que, aos 30, resolveu entender melhor alimentação. Meu projeto inicial de doutorado tratava do tema. No semestre passado me matriculei na disciplina Alimentação, Mercados e Consumo no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Rural da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e, desde então, comer não tem tido o mesmo sabor. Nesse momento, me vejo em um limbo que eu chamo de crise da ansiedade alimentar.

Eu e a comida. A comida e eu.

Mas, talvez, antes de continuar eu deva me apresentar e contar um pouquinho da minha relação com a comida e a gastronomia. Eu sou prolixa e gosto de histórias “desde o princípio”. Sou jornalista mas me considero mais uma criadora de conteúdo. Tenho 31 anos. Ao longo do ensino superior fui fisgada por um “vírus” chamado ciência.

Então, desde o segundo ano da faculdade (2005) venho realizando pesquisas científicas no campo da comunicação (aquela escadinha: Iniciação Científica, Monografia, Especialização, Mestrado e, agora, doutorado). Traduzindo, apenas uma outra forma de investigar o mundo. Sendo jornalista por formação, seria natural que o ímpeto curioso me trouxesse a esse caminho. Acontece com muitas pessoas.

No intervalo desse percurso acadêmico-científico (após o mestrado e antes do doutorado, um intervalo de 5 anos) a vivência no mercado da comunicação me aproximou de negócios na gastronomia, paralelamente, meu interesse por novas comidas e sabores só aumentava. Coincidentemente, um mês depois de criar o Aventuras fui trabalhar em uma assessoria de comunicação onde atendi várias contas na área da alimentação.

Até aí eu lidava apenas com o encantador mundo da alimentação gastronomizada: jantares chics, espumantes borbulhando, menus poéticos, chefs renomados com seus discursos do quanto a comida é uma coisa linda, comida estética – aprendi a fotografar alimentos e deixá-los muito apetitosos nas imagens.

Não tenho noção de quanto gastei nessa época em restaurantes e vinhos caros, livros de receita, gastronomia e técnica fotográfica de alimentos, equipamento fotográfico próprio para fotografar comida (até dei aula disso quando professora de fotografia publicitária na universidade durante 2 anos e meio), entre tantos outros investimentos (temperos importados, utensílios gourmets… e por aí vai). Comer bem – em todo o sentido francês da ilusão toda – era a melhor coisa que aquele período pôde me proporcionar.

Aprendi muito: sobre gastronomia, sobre vinhos, sobre fotografia de alimentos, sobre ver poesia nos ingredientes e alimentos, a amar a comida e, assim, ela virou minha paixão e ouvir que alguém fazia dieta ou que só comia frango com batata doce me partia a alma e eu logo mandava ler Pegando Fogo, do Richard Wrangham: cozinhar – e comer – nos tornou humanos e precisamos retomar essas práticas no nosso dia a dia. Até aprendi a cozinhar.

Todo esse caminho me trouxe até aqui. Nele reconheci e fiz amigos muito queridos: chefs, cozinheiros, pessoas de todas as áreas apaixonadas pela cozinha e pela comida. Quase larguei o jornalismo para estudar gastronomia centenas de vezes apenas para entender melhor como nos alimentamos e tentar diminuir essa ansiedade alimentar. (Ainda não aconteceu… mas, acho que ainda é possível).

As incertezas alimentares

Porém, nada “desgraça” mais nossa cabeça do que o conhecimento. Ao mesmo tempo uma dádiva e fator de ansiedades múltiplas. Gerenciando um blog na área, fatalmente eu estudaria cada vez mais o tema. E, quando a gente aprofunda é que encontra as verdadeiras questões. Eu já acompanhava meu peso aumentando, casos de gente que comeu soja a vida inteira a fim de evitar as carnes vermelhas e ficou doente pelo consumo de soja.

Conheci pessoas que seguiam à risca dietas consideradas as mais saudáveis do mundo e desenvolveram câncer pelo consumo excessivo de – PASMEM – peixe! O queridinho da alimentação. A cada nova publicação da Organização Mundial de Saúde (OMS) com a lista dos alimentos cancerígenos, que provocam altas em níveis de colesterol, gordura, alto teor de açúcar e sódio, entre outros aspectos… as escolhas alimentares ficam mais confusas. E, comer torna-se um risco entre saúde e doença/morte.

Ao longo da disciplina no doutorado outras portas para compreender os alimentos foram abertas. E, mesmo com os esforços de uma série de movimentos em prol de uma alimentação melhor, mais saudável e menos industrializada, entendemos que toda essa reação é sempre engolida pela indústria alimentícia. Comprar “comida local” fora do local não tem sentido. Mas, é comum ver o distribuidor de cerveja artesanal  vendendo a cerveja artesanal do Sul do país no nordeste e usando o slogan Buy local.

O retorno à agricultura familiar não significa que encontramos uma agricultura menos agressiva ao meio ambiente, isso quando a grande indústria não compra desses mesmos produtores e toma pra si, novamente, todo o processo. Quem planta não come o que colhe, compra comida no supermercado. Açúcar foi um fator de diferenciação social e estratégia de marketing que vem nos adoecendo há séculos. A Revolucão Verde e a cientificização da produção alimentícia… cada nova proposta de solução gera uma cadeia de novos problemas.

As políticas alimentares dos governos são assustadoras quando entendemos suas lógicas. Pessoas ficando doentes pelos excessos alimentares enquanto a produção excedente de alimentos vai parar no lixo e não nos estômagos de quem morre de fome ao redor do mundo. Ironicamente, a comida, a fonte de energia que nos sustenta, tornou-se um dos maiores problemas da humanidade. E, frequentemente me pergunto se meus hábitos alimentares podem ajudar de alguma forma a enfraquecer essas forças produtivas que vêm nos adoecendo.

Ansiedade alimentar

Chegando de viagem semana passada, fui ao supermercado. Eu já vinha percebendo uma certa falta de vontade de comer. A rotina puxada de estudos e responsabilidades das pesquisas e atividades da pós-graduação, o tempo escasso, a mudança geográfica de alimentação, entre outras coisas. Desde o começo do ano venho apresentando reações alérgicas que nenhum exame consegue diagnosticar o que no fundo eu já sei o que é: a comida tem nos envenenado e, pior, não tenho confiado em qualquer alternativa para adquirir e preparar alimentos.

Maior parte das coisas que comia antes, não me enchem mais os olhos há algum tempo. Óbvio, voltando a ser estudante (e sendo bolsista de doutorado no Brasil), muitas dessas coisas também não cabem mais no orçamento, percebam que há cerca de 1 ano e meio não venho mais produzindo conteúdo para o YouTube do blog por motivos de: comida boa e bonita custa muito caro.

Essa semana, as coisas ficaram mais preocupantes. Me vi sem opções. Passei 1 hora no supermercado e voltei com água gasosa, limão, salsa, iogurte (que quase ficou), café, biscoito água e sal, tapioca. Não peguei: ovos, manteiga, leite, pão, proteínas vegetais, nem molhos prontos. Peguei algumas frutas e legumes, mas, pensando: vou ficar doente do mesmo jeito com essa merda toda cheia de agrotóxico.

Já pensei na alternativa da horta urbana em apartamento, mas, não sou agrônoma. Não sei plantar e plantar é difícil. Nem tudo cresce como manjericão e a gente não pode parar de comer. Às vezes eu entendo quem sempre critiquei e já cheguei a pensar que uma pílula nutricional poderia ser a melhor solução para os nossos problemas com comida.

O Master Chef, a gastronomia e o show da irrealidade

Toda terça-feira à noite a gente acompanha em rede nacional aberta o maior reality show de culinária e gastronomia da TV brasileira. Cozinheiros amadores e profissionais, do alto de suas listas de supermercados irreais  nos ensinando – o país que só em 2017 terá 3,6 milhões de novos pobres (dados de pesquisa realizada pelo Bando Mundial) – o bom gosto na cozinha enquanto o brasileiro comum trabalha 98 horas por mês para comprar uma cesta básica (dados do Departamento Intersindical de Estatísticas e Desenvolvimento Econômico – 2015).

Há alguns meses recebi aqui no blog um comentário super desaforado e recalcado sobre o termo “gastronomia” estar no título. Fiquei meses avaliando se valia a pena responder e refutar o conceito aristocrático do século XVII que as afirmações d@ comentarist@ traziam e que nem é o caso mencionar. Até concluir que há tantos dramas alimentares mais graves para eu me preocupar do que tentar explicar que no Brasil é preciso viver muito dentro de uma bolha pra interpretar comida fator de diferenciação social. Dessa bolha não faço parte e é por isso que o DOM, o ORO, o Maní… ou qualquer restaurante de gastronomia requintada brasileira – que pagam super mal seus cozinheiros enquanto cobram fortunas por mesa – não está entre nossos posts.

Amigos, eu nasci e cresci no nordeste. Meus pais nasceram em cidades muito simples e pequenas dessa região. Eu conheço a cara da fome estampada no rosto das crianças na BR-135, da seca, da dieta básica e nada glamourizada.  Por questão de ter crescido em meio a esse contexto eu tenho dificuldade de me ver comprando essa comida, apesar de compreendê-la e admirá-la. Eu entendo um menu degustação num restaurante deste tipo custar R$400 por pessoa. E, em algum momento da vida poderei vir a pagar por essa experiência, sim, porque ela não é menor, nem inválida. Mas, no momento, não está nas prioridades editoriais deste blog. Além de que eu preferiria ir pesquisar ingredientes com Alex Atala no meio da Amazônia e comer o ensopado de formiga dos índios, como centenas de vezes comi o chibé com as pessoas que moram onde meu pai nasceu, por exemplo. Então, apenas, #sejemenas e obrigada por comentar.

Aqui sempre entendemos gastronomia a partir de conceitos mais modernos: uma tentativa de resgatar hábitos alimentares mais nobres – no sentido do ato de comer melhor, não no sentido de ingredientes mais caros -, de respeito aos alimentos, aos nossos corpos, da melhor compreensão do que ingerimos, além da investigação de métodos e técnicas que possam colaborar para a resolução dos questões alimentares do mundo. Alguns gastrônomos mais atualizados com a realidade atual têm se dedicado a questões como essas. E, claro, encontrar prazer no ato alimentar. Essa sempre foi nossa proposta aqui. Menos Master Chef, mais comida pelo que ela é. 😉

Como voltar a ter prazer por comer?

No momento acordo sem fome. Há dias tento comer logo de manhã… pensando serem as tais toxinas que o estômago produz à noite, experimentei o chá de limão em jejum. Ontem só fui sentir algum apetite por volta das 14h. Me pergunto como pode minha fonte de satisfação pessoal ter se transformado nesse túnel sem saída. Será só saudade da comida de casa (onde a cada garfada eu recebo uma observação coletiva por estar “cheinha” e, então, perco toda a vontade de comer)?

Ontem também assisti OKJA, o filme bastante assertivo sobre o presente e o futuro do abastecimento alimentar. Chorei e pensei: não quero mais comer bichos. Chorei mais: parar de comer bichos não vai salvar o planeta, nem conscientizar a indústria. Já à noite fui lanchar num lugar muito tradicional aqui de Porto Alegre com minhas colegas de apartamento. Uma delas não para de vomitar desde que voltamos. Nem preciso mencionar a irresponsabilidade de alguns estabelecimentos comerciais no ramo da alimentação, é só ligar a TV e esperar os escândalos surgirem no jornal. Enquanto isso a ansiedade alimentar só aumenta.

Bom, encerro esse desabafo no horário do almoço, mais uma vez, sem saber muito bem o que comer: o que não vai me dar o efeito refluxo? O que não vai me engordar? O que não vai me dar alergia? O que não vai me dar indigestão? O que não tem veneno? Agrotóxicos? Por que comer tem me feito tão mal? Onde comprar comida? Como não me intoxicar?

Parei de tomar refrigerante. Eu AMO pizza e hambúrguer artesanais. Será que realmente é preciso tirar o pão da dieta? Eu tô enjoada de só comer tapioca. E o milho? Todo milho é transgênico! Adeus, cuscuz! Camarão faz mal? É a barata do mar. ECA! Mas é tão gostoso! E caranguejo! Tem que colocar ele vivo na panela! Que HORROR! EURECA! Massa! Será que massa é a solução? Mas, carboidrato…. não dá todo dia, né?

Virar vegetariana? Mas, os vegetais também são cultivados em escala industrial. E eu não confio nos selos orgânicos do supermercado, nem da feira. Além, de: É CARO! E o vinho? Faz bem? Resveratrol. Mas tem tão pouco no vinho e álcool vira açúcar. Não é?

Em meio a tantas incertezas, às vezes tenho vontade de pedir socorro para tentar descobrir como eu posso voltar a conseguir comer sem peso na consciência, no corpo, no meio ambiente ou na culpa.

Com palavras sinceras,
Ludimila Matos.

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Fontes para entender o moderno – e confuso – sistema alimentar.
Tudo nessa pasta AQUI.

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